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domingo, 16 de agosto de 2015

Charles Baudelaire - Bênção

Bênção
 

Quando, por uma lei das supremas potências,
O Poeta se apresenta à platéia entediada,
Sua mãe, estarrecida e prenhe de insolências,
Pragueja contra Deus, que dela então se apiada:


"Ah! Tivesse eu gerado um ninho de serpentes,
Em vez de amamentar esse aleijão sem graça!
Maldita a noite dos prazeres mais ardentes
Em que meu ventre concebeu minha desgraça!


Pois que entre todas neste mundo fui eleita
Para ser o desgosto de meu triste esposo,
E ao fogo arremessar não posso, qual se deita
Uma carta de amor, esse monstro asqueroso,


Eu farei recair teu ódio que me afronta
Sobre o instrumento vil de tuas maldições,
E este mau ramo hei de torcer de ponta a ponta,
Para que aí não vingue um só de teus botões!"


Ela rumina assim todo o ódio que a envenena,
E, por nada entender dos desígnios eternos,
Ela própria prepara ao fundo da Geena
A pira consagrada aos delitos maternos.


Sob a auréola, porém, de um anjo vigilante,
Inebria-se ao sol o infante deserdado,
E em tudo o que ele come ou bebe a cada instante
Há um gosto de ambrósia e néctar encarnado.


Às nuvens ele fala, aos ventos desafia
E a via-sacra entre canções percorre em festa;
O Espírito que o segue em sua romaria
Chora ao vê-lo feliz como ave da floresta.


Os que ele quer amar o observam com receio,
Ou então, por desprezo à sua estranha paz,
Buscam quem saiba acometê-lo em pleno seio,
E empenham-se em sangrar a fera que ele traz.


Ao pão e ao vinho que lhe servem de repasto
Eis que misturam cinza e pútridos bagaços;
Hipócritas, dizem-lhe o tato ser nefasto,
E se arrependem por haver cruzado os passos.


Sua mulher nas praças perambula aos gritos:
"Pois se tão bela sou que ele deseja amar-me,
farei tal qual os ídolos dos velhos ritos,
e assim, como eles, quero inteira redourar-me;


E aqui, de joelhos, me embebedarei de incenso,
De nardo e mirra, de iguarias e licores,
Para saber se desse amante tão intenso
Posso usurpar sorrindo os cândidos louvores.


E ao fatigar-me dessas ímpias fantasias,
Sobre ele pousarei a tíbia e férrea mão;
E minhas unhas, como as garras das Harpias,
Hão de abrir um caminho até seu coração.


Como ave tenra que estremece e que palpita,
Ao seio hei de arrancar-lhe o rubro coração,
E, dando rédea à minha besta favorita,
Por terra o deitarei sem dó nem compaixão!"


Ao céu, de onde ele vê de um trono a incandescência,
O Poeta ergue sereno as suas mãos piedosas,
E o fulgurante brilho de sua vidência
Ofusca-lhe o perfil das multidões furiosas:


"Bendito vós, Senhor, que dais o sofrimento,
esse óleo puro que nos purga as imundícias
como o melhor, o mais divino sacramento
e que prepara os fortes às santas delícias!


Eu sei que reservais um lugar para o Poeta
Nas radiantes fileiras das santas Legiões,
E que o convidareis à comunhão secreta
Dos Tronos, das Virtudes, das Dominações.


Bem sei que a dor é nossa dádiva suprema,
Aos pés da qual o inferno e a terra estão dispersos,
E que, para talhar-me um místico diadema,
Forçoso é lhes impor os tempos e universos.


Mas nem as jóias que em Palmira reluziam,
As pérolas do mar, o mais raro diamante,
Engastados por vós, ofuscar poderiam
Este belo diadema etéreo e cintilante;


Pois que ela apenas será feita de luz pura,
Arrancada à matriz dos raios primitivos,
De que os olhos mortais, radiantes de ventura,
Nada mais são que espelhos turvos e cativos!".

                                                   

                                                   Charles Baudelaire

sábado, 5 de maio de 2012

Luciano Pires - Poros e Penia

Poros e Penia (ou como percebi o meu platonismo...)


Tenho vontade
Algo que pertence a todos famígeros
Tenho que sair
E procurar ainda ser
Tenho fome
Os restos ainda são meus refugios
Refugos de uma festa em vão
No olhar azul imensidão
Plenitude
Liberdade como nunca
O que enlaça o famigero
O que encalça o esperto
E no envolver cambaliante
do trago que não satura
Será que somos todos falta
Ou plenitude da pura
Plenos, serenos ao luar
Como deuses em relva
Dorço nú a desejar
Engenhoso ente
Em seu estado sem pertubar
Eros se faz falta e prospero
Carne como todos
Caminho e meia-volta
A ligar tudo e nada
A fazer toda festa e toda falta
E no fim todos assim somos
Espertos, plenos, caminhos dos caminhantes
Falta, vazios, não saturados, inebriantes
Somos deuses ou homens
pobres ou ricos
Sábios ou ignorantes
Somos só isso
E isso será que nos basta?




Luciano Pires

De repente acordei em minhas aulas...

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Carlos Drummond de Andrade - Destruição

Destruição


Os amantes se amam cruelmente
e com se amarem tanto não se vêem.
Um se beija no outro, refletido.
Dois amantes que são? Dois inimigos.

Amantes são meninos estragados

pelo mimo de amar: e não percebem
quanto se pulverizam no enlaçar-se,
e como o que era mundo volve a nada.

Nada, ninguém. Amor, puro fantasma

que os passeia de leve, assim a cobra
se imprime na lembrança de seu trilho.

E eles quedam mordidos para sempre.

Deixaram de existir mas o existido
continua a doer eternamente.



Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Orlando Álvares - Osfinarmente (In Memoriam)

Osfinarmente


Já passei dos 50
Contornei os 60
Lutarei pra galgar os 70
Não desanimarei dos 80
Com jeitinho chegarei aos 90
E com CERTEZA
Absoluta CERTEZA
Vou chegar aos 100:
Sem pele
Sem sangue
Sem músculos: um pequeno montinho de pó!
Oh, dó!
Mas, me alegro
Me animo
Porque, na qualidade de caveira:
SORRIREI ININTERRUPTAMENTE A ETERNIDADE INTEIRA!



Orlando Álvares Pinheiro

terça-feira, 10 de abril de 2012

Alberto Caeiro - O Guardador de Rebanhos (XXIX)

O Guardador de Rebanhos - XXIX




Nem sempre sou igual no que digo e escrevo.
Mudo, mas não mudo muito.
A cor das flores não é a mesma ao sol
De que quando uma nuvem passa
Ou quando entra a noite
E as flores são cor da sombra.

Mas quem olha bem vê que são as mesmas flores.

Por isso quando pareço não concordar comigo,
Reparem bem para mim:
Se estava virado para a direita,
Voltei-me agora para a esquerda,
Mas sou sempre eu, assente sobre os meus pés —
O mesmo sempre, graças ao céu e à terra
E aos meus olhos e ouvidos atentos
E à minha clara simplicidade de alma...




Alberto Caeiro

domingo, 8 de abril de 2012

Henrique Persine - Oração a Gregório


Oração a Gregório



Se em sua alta glória
Deus me soltar de suas mãos
e como um fantoche no espaço
eu nem sequer tiver chão
para abaixo em consolar?
E se em solo espatifado
saltarem meus órgãos como répteis
da grande peste profetizada?

Ainda assim haveria madeiro,
mártires e lágrimas para o calvário mundano?
Ou de sua altivez ouviria gargalhos,
divinas irrisões como sonoro trovão?

Escorpiões apocalípticos passariam por mim
como uma tropa romana,
insetos vorazes saqueariam o detrito
como um antigo rito misericordioso.

Depois de Abadom, do palco das nuvens,
a sétima trombeta anunciaria o fim:
o primeiro flagelo, o terceiro flagelo...
a descrição da meretriz, os mil anos do dragão.

Mas de suas mãos serei solto ao ar
ou como era de se esperar
pularei feito um louco,
sem mesmo agarrar suas barbas e mantas,
orgulhando-me do fato?

Ó Gregório de Matos, conduza-me no pêndulo
do perdão e do pecado,
e fazei-me abrir com sua lira torta
a sagrada porta da concepção;
pois a ovelha desgarrada novamente se perdeu
e não quer fazer de Deus
um frustrado na missão.

Ora, irrisão!
Também traz humano Matos:
− Por que com esses atos
não me provocas emoção?
Vá ao breu da rua
e encha o copo de teus irmãos!
Vá ao mel da lua
e dome corpos não só por mãos!



Henrique Persine

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Vinicius de Moraes - Ausência



Ausência


Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre minha carne como uma nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos
Mas eu te possuirei mais que ninguém porque poderei partir
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.



Vinicius de Moraes


sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Henrique Persine - Um Dia Azul


Um dia azul


Quase um traço de sorriso
se desenha mesmo em lágrimas
e a contradição nos agracia
solenemente
à beira de um mar de luz.

Banha-me mar de luz
pelos teus cabelos de neblina,
embriaga minha fome
pela velocidade de fúria, de desimportância
e deriva.
A liberdade se veste de grito
e eu estou nu, silenciosamente nu
para o teu líquido,
pelo teu azul.

Cantamos aurora num segundo de glória,
num desatino de compaixão.
Mas o que vem até nós
quando o que sobre é escuridão?
E por delírio de claro
a pele delira, sedimenta
nas profundezas de um dia
por fome de azul,
somente um dia e nada mais.

Calo-me vermelho por dentro da carne
enquanto o azul é bastante horizonte,
para apenas dois olhos
bastante horizonte.




Henrique Persine

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Luís de Camões - Julga-me a gente toda...


Julga-me a gente por perdido,
vendo-me tão entregue a meu cuidado,
andar sempre dos homens apartado,
e dos tratos humanos esquecido.

Mas eu, que tenho o mundo conhecido,
e quase que sobre ele ando dobrando,
tenho por baixo, rústico, enganado,
quem não é com meu mal engrandecido.

Vá revolvendo a terra, o mar e o vento,
busque riquezas, honras e outra gente,

vencendo ferro, fogo, frio e calma;
que eu só em humilde estado me contento,
de trazer esculpido eternamente
vosso formoso gesto dentro n'alma.


Luís de Camões

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Manuel Bandeira - Arte de Amar

Arte de Amar


Se queres sentir a felicidade de amar, esquece tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação,
Não noutra alma. Só em Deus -- ou fora do mundo.

As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.

Porque os corpos se entendem, mas as almas não.



Manuel Bandeira

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Ferreira Gullar - O Açúcar


O Açúcar


O branco açúcar que adoçará meu café
nesta manhã de Ipanema
não foi produzido por mim
nem surgiu dentro do açucareiro por milagre.

Vejo-o puro
e afável ao paladar
como beijo de moça, água
na pele, flor
que se dissolve na boca. Mas este açúcar
não foi feito por mim.

Este açúcar veio
da mercearia da esquina e tampouco o fez o Oliveira,
dono da mercearia.
Este açúcar veio
de uma usina de açúcar em Pernambuco
ou no estado do Rio
e tampouco o fez o dono da usina.

Este açúcar era cana
e veio dos canaviais extensos
que não nascem por acaso
no regaço do vale.

Em lugares distantes, onde não há hospital
nem escola,
homens que não sabem ler e morrem
aos vinte e sete anos
plantaram e colheram a cana
que viraria açúcar.

Em usinas escuras,
homens de vida amarga
e dura
produziram este açúcar
branco e puro
com que adoço meu café esta manhã em Ipanema.



Ferreira Gullar

sábado, 15 de outubro de 2011

Carlos Drummond de Andrade - Poema de Sete Faces



Poema de Sete Faces

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.


Carlos Drummond de Andrade

domingo, 18 de outubro de 2009

Álvaro de Campos - Nuvens

Nuvens


No dia triste o meu coração mais triste que o dia...
Obrigações morais e civis?
Complexidade de deveres, de conseqüências?
Não, nada...
O dia triste, a pouca vontade para tudo...
Nada...


Outros viajam (também viajei), outros estão ao sol
(Também estive ao sol, ou supus que estive).
Todos têm razão, ou vida, ou ignorância simétrica,
Vaidade, alegria e sociabilidade,
E migram para voltar, ou para não voltar,
Em navios que os transportam simplesmente.
Não sentem o que há de morte em toda a partida,
De mistério em toda a chegada,
De horrível em todo o novo...

Não sentem: por isso são deputados e financeiros,
Dançam e são empregados no comércio,
Vão a todos os teatros e conhecem gente...
Não sentem: para que haveriam de sentir?

Gado vestido dos currais dos Deuses,
Deixá-lo passar engrinaldado para o sacrifício
Sob o sol, álacre, vivo, contente de sentir-se...
Deixai-o passar, mas ai, vou com ele sem grinalda
Para o mesmo destino!
Vou com ele sem o sol que sinto, sem a vida que tenho,
Vou com ele sem desconhecer...

No dia triste o meu coração mais triste que o dia...
No dia triste todos os dias...
No dia tão triste...






Álvaro de Campos

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