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sábado, 5 de maio de 2012

Luciano Pires - Poros e Penia

Poros e Penia (ou como percebi o meu platonismo...)


Tenho vontade
Algo que pertence a todos famígeros
Tenho que sair
E procurar ainda ser
Tenho fome
Os restos ainda são meus refugios
Refugos de uma festa em vão
No olhar azul imensidão
Plenitude
Liberdade como nunca
O que enlaça o famigero
O que encalça o esperto
E no envolver cambaliante
do trago que não satura
Será que somos todos falta
Ou plenitude da pura
Plenos, serenos ao luar
Como deuses em relva
Dorço nú a desejar
Engenhoso ente
Em seu estado sem pertubar
Eros se faz falta e prospero
Carne como todos
Caminho e meia-volta
A ligar tudo e nada
A fazer toda festa e toda falta
E no fim todos assim somos
Espertos, plenos, caminhos dos caminhantes
Falta, vazios, não saturados, inebriantes
Somos deuses ou homens
pobres ou ricos
Sábios ou ignorantes
Somos só isso
E isso será que nos basta?




Luciano Pires

De repente acordei em minhas aulas...

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Orlando Álvares - Osfinarmente (In Memoriam)

Osfinarmente


Já passei dos 50
Contornei os 60
Lutarei pra galgar os 70
Não desanimarei dos 80
Com jeitinho chegarei aos 90
E com CERTEZA
Absoluta CERTEZA
Vou chegar aos 100:
Sem pele
Sem sangue
Sem músculos: um pequeno montinho de pó!
Oh, dó!
Mas, me alegro
Me animo
Porque, na qualidade de caveira:
SORRIREI ININTERRUPTAMENTE A ETERNIDADE INTEIRA!



Orlando Álvares Pinheiro

domingo, 8 de abril de 2012

Henrique Persine - Oração a Gregório


Oração a Gregório



Se em sua alta glória
Deus me soltar de suas mãos
e como um fantoche no espaço
eu nem sequer tiver chão
para abaixo em consolar?
E se em solo espatifado
saltarem meus órgãos como répteis
da grande peste profetizada?

Ainda assim haveria madeiro,
mártires e lágrimas para o calvário mundano?
Ou de sua altivez ouviria gargalhos,
divinas irrisões como sonoro trovão?

Escorpiões apocalípticos passariam por mim
como uma tropa romana,
insetos vorazes saqueariam o detrito
como um antigo rito misericordioso.

Depois de Abadom, do palco das nuvens,
a sétima trombeta anunciaria o fim:
o primeiro flagelo, o terceiro flagelo...
a descrição da meretriz, os mil anos do dragão.

Mas de suas mãos serei solto ao ar
ou como era de se esperar
pularei feito um louco,
sem mesmo agarrar suas barbas e mantas,
orgulhando-me do fato?

Ó Gregório de Matos, conduza-me no pêndulo
do perdão e do pecado,
e fazei-me abrir com sua lira torta
a sagrada porta da concepção;
pois a ovelha desgarrada novamente se perdeu
e não quer fazer de Deus
um frustrado na missão.

Ora, irrisão!
Também traz humano Matos:
− Por que com esses atos
não me provocas emoção?
Vá ao breu da rua
e encha o copo de teus irmãos!
Vá ao mel da lua
e dome corpos não só por mãos!



Henrique Persine

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Henrique Persine - Um Dia Azul


Um dia azul


Quase um traço de sorriso
se desenha mesmo em lágrimas
e a contradição nos agracia
solenemente
à beira de um mar de luz.

Banha-me mar de luz
pelos teus cabelos de neblina,
embriaga minha fome
pela velocidade de fúria, de desimportância
e deriva.
A liberdade se veste de grito
e eu estou nu, silenciosamente nu
para o teu líquido,
pelo teu azul.

Cantamos aurora num segundo de glória,
num desatino de compaixão.
Mas o que vem até nós
quando o que sobre é escuridão?
E por delírio de claro
a pele delira, sedimenta
nas profundezas de um dia
por fome de azul,
somente um dia e nada mais.

Calo-me vermelho por dentro da carne
enquanto o azul é bastante horizonte,
para apenas dois olhos
bastante horizonte.




Henrique Persine

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